TIETA CAPITULO 2


Capitulo 2

Perpétua: Avisar a quem sua lesada? Quem? Só se o marido dela for pinel.
Elisa  (ingênua): Pinel? Não vejo por quê.
Perpétua (estuda a irmã em silêncio): Porque se Tieta passa dessa pra uma melhor, a gente tem direito a herança dela. E dividida em três: Entre tu, eu e o velho.

Elisa volta a enxugar os pratos pensativa
Elisa: Quem vai herdar tudo é o marido dela, o Comendador. Por que a gente havia de herdar? Pro Pai, pode ser que ela deixe alguma coisa, tem sido boa filha, boa até demais. Mas, pra nós duas, por quê?  A troco de quê? Quando ela saiu de casa, eu tinha menos de um ano, nem me lembro da fuça dela. E tu? Não foi por tua culpa que ela foi embora?

Perpétua: Aquela doida foi embora porque quis. Não me cabe culpa nenhuma não.

Elisa (venenosa): Não foi tu que xeretou ao pai? Seguiu Tieta até aquela casa e abriu o bico? Ele quebrou a pobre no cacete, tocou ela rua afora, não foi? Mãe me contou como se deu e Pai confirmou, disse que tu foi a culpada. Ainda que mãe implorasse a tu pra não contar nadica de nada ao pai.

Perpétua: Dizem isso agora, para adular, porque ninguém tem o que dizer. Depois que ela começou a mandar dinheiro, virou santa. Por que tua mãe não tomou as dores na ocasião? Quem foi que deu a surra, quem botou ela pra fora de casa? Eu ou o Velho?

Elisa estende sobre a mesa a toalha manchada de azeite, de feijão, de café – Astério tem mão podre, não sabe se servir sem derramar caldos e molhos, o infeliz. Encolhe os ombros, não responde à pergunta de Perpétua, o pai e a irmã que decidam entre eles de quem a culpa; dela, Elisa, é que não foi, não completara um ano de idade quando denúncia, expulsão e fuga aconteceram.

   Perpétua: Por que tu se empenha em recordar o passado? A própria Tieta não esquecera?  Não envia dinheiro, presentes? Não ajuda nas despesas? Ademais, há males que vêm para bem, não é mesmo? Se ela não tivesse sido posta no olho da rua, em vez de partir para o Sul e triunfar em São Paulo, bem casada, cheia de dinheiro, feliz da vida, teria ficado ali, naquele buraco, vegetando na pobreza, sem direito a noivado e casamento pois a história com o caixeiro-viajante logo se tornara de domínio público. Sem direito a nada, mera criada do pai e da madrasta.

Elisa: Não falei por mal, é só para mostrar que ela não tem motivo pra querer deixar herança pra nós duas.

Perpétua: Não depende dela querer ou não querer... (descerra os olhos, compõe a saia, retira invisível cisco da blusa)  Quando ela bater a caçoleta, metade da fortuna fica para o marido e, como ela não tem filhos, a outra metade é dividida entre os parentes, os parentes próximos, o Velho e nós, o pai e as irmãs.

Elisa  (intrigada): Como é que tu sabe disso?

Perpétua: Doutor Almiro me disse...

Elisa: O promotor? E tu foi falar isso com ele?

Perpétua: Propriamente falar, não falei. Ele estava conversando com padre Mariano, eu e outras zeladoras de junto, ouvindo. Estavam falando da herança de seu Lito, que deixou o dinheiro todo para o padre dizer missa pela salvação da alma dele na Igreja da Senhora Sant’Ana. Pois já vai para mais de seis meses que ele morreu e até agora o padre não viu a cor do dinheiro. Está depositado na mão do juiz, em Esplanada, porque os parentes botaram questão, com advogado e tudo. Doutor Almiro disse que, pela lei, metade é deles. Daí eu fui perguntando, como quem não quer nada...

Elisa (interessada): Tu quer dizer que quando uma pessoa morre, metade do que ela tem fica pros parentes?

Perpétua: E não é?   (busca no bolso da saia um lenço para enxugar o suor fino na testa, com o lenço aparece um terço de contas negras.)

Elisa: Quer dizer que se tu morrer, metade do que é teu fica pra mim e pro Pai...?

Perpétua:  Tu não presta atenção no que se fala. É uma lesada mesmo. Só quando o falecido não tem filhos; é o caso dela, mas não o meu. O que eu deixar quando morrer vai ser repartido entre Ricardo e Peto, meus filhos, meus únicos herdeiros. Já foi assim quando o Major morreu ( faz o sinal-da-cruz, eleva os olhos murmurando Deus o tenha em sua glória ), a herança foi dividida, metade para mim, metade para os meninos. O doutor Almiro...

Elisa (interrompe): Tu perguntou isso também?

Perpétua: Sempre é bom saber.

Elisa: Tu pensa que ela morreu e que o marido não diz nada para ficar com tudo? É isso que eu entendi? (pausa) Perpétua, tu tá de olho grande no dinheiro de Tieta?

FIM DO CAPITULO 2


Comentários

Postagens mais visitadas