TIETA CAPITULO 1



DA OBRA DE JORGE AMADO

CAPITULO 1

SANTANA DO AGRESTE

Silêncio e solidão, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o leito despejado, o fim e o começo. Dunas imensas, límpidas montanhas de areia, a menina correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol e o zunido do vento, os pés leves e descalços pondo distância entre ela e o homem forte, na pujança dos quarenta anos, a persegui-la. P arecem duas crianças brincando...

Quase sem ar nos pulmões, o homem sobe, o chapéu na mão cai na areia e se perde nos penasmentos. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva.


Mascate:  Quando te pegar, peste, ta arrombo e mato.
Tieta: Por acaso o moço tá me ameaçando?
Mascate: Tá pagando pra ver cabrita?
Tieta (penastiva): Se ele me pegar vai abusar de mim, mas, por outro lado, se eu não esperar, ele desiste, ah, isso não, não pode permitir mesmo que queira pois o tempo é chegado. Preciso ser moça e mulher.
Mascate (para já cansado grita de longe): Ok, sua cabrita! Eu desisto, embora eu lhe queira e muito!


 Ela não ouve a frase toda mas adivinha e responde:
Tieta: Bééééé!! (Responde Tieta feito as cabras que ela pastoreia)
Mascate:  Sua safada!

Lá atrás o rio,o vento deposita diária colheita de areia, a mais alva, a mais fina, escolhida a propósito para formar a praia singular de Mangue Seco, sem comparação com nenhuma outra, aqui onde a Bahia nasce na convulsa conjunção do rio Real com o oceano.

Mascate:  Quer dar uma volta de barco comigo?
Tieta: Feito as vadias que o senhor carrega? (pausa) É o que os pescadores dizem por aí.
Mascate: Quer ou não?
Tieta: Eu podia dizer não, muito obrigada... Mas não vou, eu quero passear de barco sim... e agora.


Depois do passeio de uns 15 minutos eles param na outra extremidade da praia. A menina Tieta, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da cabeça aos pés.
O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calçola, trapo sujo.

Mascate: Hoje tu é minha, cabrita!

 De joelhos sobre ela, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele  faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada. Sua hora chegou, já era moça, 15 ou 16 anos, já menstruava, tinha seios, era mulher feita, de corpo feito. Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto de homem, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a possuiu, igual as cabritas , ela berrou. De dor e de prazer.


DEZ ANOS DEPOIS...


Empertigada na cadeira, as mãos cruzadas sobre o peito magro, toda em negro dos sapatos ao xale, coberta assim de luto fechado desde a morte do marido, Perpétua pensa e diz a irmã Elisa.

Perpétua: E se sucedeu alguma coisa com ela?
Elisa: E o que poderia ter acontecido a Tieta Perpétua?
      Perpétua: E eu sei lá! Vai ver ela bateu a caçoleta? Foi pra terra dos pés juntos. Pra mim ela morreu!
      Elisa: Deus que me livre, vire essa boca pra lá. (se benze) Eu hein?

Elisa estremece, solta o pano de prato, derrotada pelo mau presságio. Há dois dias e duas noites longas tenta arrancar da cabeça esse maldito pensamento a persegui-la, a roubar-lhe o sono, a deixá-la com os nervos em ponta.


Perpétua: E tu tem outra explicação? Se tiver me diga!


Perpétua descruza as mãos, alisa a saia de gorgorão bem passada, ratifica com um movimento de cabeça; não fez uma pergunta e sim uma afirmação.


Perpétua: Hoje já é dia  vinte e oito, praticamente no fim do mês. A carta sempre chega no dia cinco pontualmente, na pior das hipoteses no dia dez. Para mim, ela bateu a caçoleta sim.
Elisa: Se Tieta tivesse morrido a gente haveria de saber. Teriam nos avisado.

Elisa busca na face da irmã outro sentimento além da preocupação pelo dinheiro. Não encontra: a proclamada morte de Tieta não aflige Perpétua, teme somente pela sorte do cheque. A cessação da remessa mensal assusta igualmente Elisa: não só perderiam a ajuda indispensável como teriam de sustentar o pai e a mãe, onde arranjar o necessário? Um horror, Deus não permita!

Um horror, sem dúvida, porém havia mais e pior. Ao calafrio de medo sucede a tristeza, um aperto no coração. Se ela morreu, então tudo se acabou para sempre, não somente o cheque, também a tênue esperança; sobrará apenas o vazio. Essa irmã Antonieta – meia-irmã, aliás, pois Elisa nascera do segundo e inesperado casamento do velho Zé Esteves – de quem não conserva lembrança, a respeito de quem sabe tão pouco, é a razão de ser de Elisa. Seu sonho era de conhecer a irmã tão diferente de Perpétua.


Perpétua: Avisar a quem sua lesada? Quem? Só se o marido dela for pinel.
Elisa  (ingênua): Pinel? Não vejo por quê.
Perpétua (estuda a irmã em silêncio): Porque se Tieta passa dessa pra uma melhor, a gente tem direito a herança dela. E dividida em três: Entre tu, eu e o velho.

Elisa volta a enxugar os pratos pensativa.


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