TIETA CAPITULO 4

CAPITULO 4
Perpétua chega ao fim do terço, beija a pequena cruz
Pepétua: Tem horas que tu nem parece mulher feita e casada, fala o que não deve. O que tu precisa é ir ajudar na igreja em vez de ficar em casa lendo revista e ouvindo rádio, gastando o tempo com essas porcarias.
Elisa deixa cair os braços, a voz novamente neutra
Elisa: Amanhã, logo que a marinete chegue, passo no correio. Vem amanhã, tu vai ver.
Pepétua: Deus te ouça. Com a desculpa da doença, Lula Pedreiro há três meses não paga aluguel. Agora mandou a chave, foi morar com o filho, deixou a casa imunda, um chiqueiro. Para alugar, vou ter que dar pelo menos uma demão de cal.
Para cada viagem que a marinete fazia de Esplanada a Santana do Agreste Jairo tinha um razoável repertório de piadas familiares e contava com a colaboração do rádio russo. Fanhoso, rabugento, indolente, de humor instável, com apitos e descargas, o insólito aparelho concorre para matar o tempo com fragmentos de músicas e notícias. Isso de passar a noite na estrada se conta nos dedos da mão, raridade. Habitualmente, no inverno, o trajeto demora de cinco a seis horas.
De acordo com o coronel Artur da Tapitanga, um plantador de mandioca e criador de cabras de 60 anos, chefe político, há mais de trinta anos sem pôr os pés fora das roças e currais e das ruas de Agreste. Após quase sete horas de caminho – a marinete como de praxe quebrara três vezes – o fazendeiro, pondo-se de pé, declarou:
Artur: Bicho mais ligeiro, essa marinete de Jairo. Um viajão!
Jairo: Ligeiro, coronel? Essa princesinha é um foguete!
Artur: Há anos atrás se levava dois dias no lombo de um cavalo e olhe lá ...
A caminho do correio, logo após a chegada da marinete de Jairo,ainda de longe, antes de transpor a porta dos correios, Elisa lê, na atitude de dona Carmosina, a comprovação do que já sabia com certeza: a carta não chegara outra vez. Braços caídos, semicerrados os olhos miúdos, o ar grave, a ativa funcionária vive, ela também, o drama do inexplicável atraso. Faz-se mais pálida a face de Elisa, os pés de chumbo, a voz inarticulada, quase um gemido
Carmosina: Nadica de nada? (pausa) Não chegou nada de Tieta de novo...
Cinqüentona, sarará, corpulenta, cara larga, voz rouca, dona Carmosina indica a correspondência do dia, escassa, espalhada no balcão
Carmosina: Infelizmente hoje não veio nenhuma carta registrada. Por via das dúvidas, passei as malas duas vezes, carta por carta. O que chegou está aí, pouca coisa. Ainda não entreguei nada, você é a primeira a aparecer. Vieram jornais e revistas, isso sim, hoje é sábado (repara na palidez da amiga) Elisa, quer um copo d’água? Você está pálida feito um avental.
Elisa: Não, obrigada.
Carmosina: Em todos esses anos, nunca atrasou tanto... Foram dez anos de pontualidade, desde o primeiro dia.
Elisa: Desde o dia que chegou o primeiro cheque... (gemeu baixo)
Carmosina: Onze anos e sete meses (corrigindo) Inda me lembro da primeira carta, como se fosse hoje. Quando abri o saco, senti logo o cheiro, naquele tempo ela usava um perfume mais forte que o de agora, encheu a sala. Que carta será essa?, perguntei a mim mesma e li correndo o sobrescrito e o nome do remetente. Estava dirigida a qualquer membro da família Esteves, mas era Astério quem pegava e trocava os cheques... Quem enviava era Antonieta Esteves, Caixa-Postal 5202, São Paulo, Capital. Vou buscar água para lhe dar, com esse calorão e nada de carta, coitadinha...
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