TIETA CAPITULO 3

CAPITULO 3
Perpétua: Eu não. Mas não pode ser? Por que ela nunca deu o endereço para nós? Mandou a gente escrever para a caixa-postal, onde já se viu? Proibição do marido, para a gente não saber. Você sabe o sobrenome dele? Nem eu. É Comendador pra cá, Comendador pra lá, e acabou-se, nada de sobrenome. Por quê? Tu não atina nessas coisas mas eu tenho pensado muito nisso e tirei minhas conclusões.
Elisa: Não acredito, não. Se ela tivesse morrido, a gente havia de saber sim.
Elisa termina de botar a mesa, fica parada, o olhar perdido
Elisa: Está é viajando, gozando a vida. Toda vez que sai a passeio, a carta atrasa, é isso. Atrasa mas chega. Lembra quando foi a Buenos Aires e mandou aquele cartão tão bonito? Vida é a dela: viagens, passeios, festas. Tieta é muito boa de pensar na gente no meio de tanta animação. Se fosse comigo que tivesse acontecido, nunca mais, nunca mais mesmo, eu havia de dar notícias.
Volta a vista para Perpétua, agora a passar as contas do terço
Elisa: E vou dizer uma coisa, acredite se quiser. Mesmo se fosse para herdar o dinheiro todinho, sem ter que dividir com ninguém, nem assim eu desejo a morte dela.
Perpétua: E eu desejo? Mas, se não chegar mais cartas, então é sinal que Antonieta morreu, foi pra terra do pé junto sim. E eu vou mover mundos e fundos até descobrir o marido dela e tomar minha parte.
Elisa: Tu acaba lesa de pensar tanta maluquice. Ela está é passeando, se divertindo. Por que agourar criatura tão direita? A carta não passa de amanhã.
Pepétua: Tomara mesmo, Deus te ouça. Fui em casa do Velho, ele está nos azeites. Sabe o que me perguntou? Se Astério não tinha metido a mão no dinheiro e pago alguma dívida, como fez daquela vez que usou o cheque para resgatar a letra vencida. O Velho pensa que a gente vive roubando ele.
Com Perpétua é assim, taco a taco: Elisa fizera referência à intriga que resultara na partida de Antonieta, Perpétua, na volta da conversa, deu o troco, desentocou o malsinado assunto da duplicata, velho de cinco anos. A voz cansada, Elisa revida sem veemência
Elisa: Tu sabe que, se ele não pagasse a letra, a loja ia à falência. Tu sabe, o Pai sabe...
Mas que a gente vive roubando, ah! Isso vive, não adianta tu ficar aí sentada de terço na mão, mastigando padre-nosso com esse ar de santa.
Pepétua: Nunca toquei num só tostão do Velho...
Elisa: Nem ele ia deixar. É dela que a gente rouba. Para que ela manda o cheque todo mês? Me diga
Pepétua: Para as despesas do Velho.
Elisa: E para que mais?
Perpétua: Para ajudar na educação dos sobrinhos.Pagar a escola de Peto e o seminário de Cardo.
Elisa: Isso mesmo. Para ajudar na educação dos filhos da gente. O meu não chegou a completar dois anos e eu nunca mais peguei menino. Nunca mais, Deus não quis... E ainda sim continuei com essa mentira. E tu? Peto sequer vai a escola que é pública e o seminario de Ricardo também não cobra um tostão, graças a padre Mariano, mesmo assim tu continua tirando dinheiro de Tieta também! Tu tem mais podres do que eu Perpétua.
Pepétua: Foi o Velho quem falou, só repeti o que ele disse.
Elisa: Tu é pappagaio pra repetir o que te dizem? Um dia eu ainda tomo coragem, escrevo a ela contando a verdade: que não tenho mais filho nenhum, o que tinha a doença levou mas que a gente precisa tanto do dinheiro que ela manda, mas tanto a ponto de me ter faltado forças para comunicar a morte de Toninho. Era capaz dela ficar com pena e mandar até mais do que manda. Só que não tenho coragem de arriscar... Por que a gente é assim, Perpétua? Por que a gente não presta? É por isso que ela não quer aproximação, não manda endereço, ajuda de longe.
Se eu tivesse o endereço... Ah!, se eu soubesse o endereço já tinha arribado pra lá!
FIM DO CAPITULO 3
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