TIETA CAPITULO 8


CAPITULO 8


Elisa passa na loja, naquela hora já repleta, Osnar escornava na cadeira. Trocara apenas um olhar com o marido, suficiente para Astério largar o metro e a peça de madrasto. Osnar pusera-se de pé

Osnar:  Bom-dia, dona Elisa.

Sabino: Bom-dia, patroa.

Osnar: Tá com cara de poucos amigos.

 Sabino: Com esse vestido decotado se me quisesse como único amigo já estava feliz!

Osnar: Vê se tome tento moleque! Vai resolver suas amizades no banheiro como todos de tua idade vice?

Sabino: (cheio de safadeza) O patrão é um felizardo...

Freguesa: Aí tem três metros? (reclamou a freguesa)

Astério voltara a medir, mal sustendo metro e tesoura.

Elisa: Vou até a casa de Perpétua, daqui a pouco mando Araci com a marmita. Até logo, Osnar, e vê se não dorme a uma hora dessa.



NA CASA DE PERPÉTUA...


Perpétua: Então? Cadê? (interroga Elisa e ela própria responde vitoriosa) Carta e cheque, babau, minha miss Bahia! Se eu fosse Astério, você não saía para a rua nesses trajes indecentes, de peitos de fora. Mas agora tudo vai acabar, esse desbarate de vestidos. Vai acabar tudo. Vai começar o tempo da pobreza... das vacas magras.

Elisa deixa-se cair na cadeira, cobre o rosto com as mãos, não retruca.

Perpétua: Bateu a caçoleta, eu te disse. Tu ainda duvida? ( além da voz sibilante, o dedo em riste)

Elisa descobre a face, balança a cabeça, vencida, as lágrimas escorrem. Perpétua, no entanto, conhece e respeita as conveniências, exigente nas formalidades. Do bolso da saia negra retira o lenço e com ele toca o canto dos olhos – nem por invisíveis deixam de ser lágrimas de luto. Coloca um acento de dor na rispidez da voz, ao gritar pelo filho mais velho

Perpétua: Cardo! Venha cá, depressa! Ai, meu Deus!

Leva o lenço novamente aos olhos, Elisa deve ver, testemunhar o sentimento a afligi-la quando a hipótese se confirma e a morte de Antonieta já não admite controvérsia.
Surge correndo um rapagão suado, os pés descalços. Forte, alto, bonito, dezessete anos desabrochando em espinhas no rosto. Sobre o lábio risonho, a sombra do buço. Vestido apenas com um calção – estava jogando bola no quintal

Ricardo: Tá me chamando, Mãe?  (nota Elisa, acrescenta outro tom)  Bênção, tia.

Respira saúde e satisfação, não percebe de imediato a atmosfera fúnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presença do filho, Perpétua enxuga lágrimas escassas mas, finalmente, visíveis. O adolescente dá-se conta, põe-se sério.

Ricardo: Que caras são essas? Aconteceu alguma coisa ao avô? De manhã cedinho, quando fui ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras...
Perpétua: Vá buscar uma vela benta, acenda no oratório. Tua tia Antonieta, coitada... foi-se dessa para uma melhor, pobrezinha...

Ricardo: (surpreso) Tia Tieta? Morreu? Quando? Como?

Elisa levanta a cabeça, rebela-se

Elisa: Ainda não se sabe de nada certo... de nada! É apenas uma suposição.

Perpétua nem responde, reafirma sua ordem.

Perpétua: Faça o que estou mandando, sei o que digo: uma vela nos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo pela alma de Antonieta. Em seguida, tome banho, vista a batina, por hoje o recreio terminou. Cadê Peto?

Ricardo: Foi pescar no rio em Mangue seco ...

Perpétua: Pois vá buscá-lo e diga a ele que o quero em casa agora mesmo. Depois do almoço vamos falar com padre Mariano. – Um suspiro, a mão sobre o peito, a conter certamente o coração.

Atônito, Ricardo, sem palavras, preso à sala pela notícia. Volta-se para Elisa. Os ombros curvos acentuam o decote no colo moreno. Apesar das críticas constantes da mãe, o moço jamais reparara na elegância da tia. Pela primeira vez dá-se conta de como ela se veste bem e se enfeita; parece uma santa, ali desamparada na cadeira, sofrida, a recusar a morte da irmã, lutando contra a evidência refletida na fisionomia e nos gestos da mãe. Na voz da tia, abafada de choro, um pedido, uma súplica.

Elisa: Vamos esperar ter certeza para falar nisso com padre Mariano... por que tanta pressa?
Ricardo não entende os motivos da discordância, e antes mesmo de condoer-se pela morta, sente pena de tia Elisa, assim desolada igual à imagem de Santa Maria Madalena, num nicho da capela do seminário.
Perpétua não se abala.

Perpétua: Nunca é cedo demais para encomendar uma pobre alma pecadora. Todos merecem a salvação e o reino dos céus. O que está esperando aí, Cardo? Não ouviu o que mandei fazer?

Ricardo: Já vou, mãe...


FIM DO CAPITULO 8

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