TIETA CAPITULO 10

CAPITULO 10
DE VOLTA AO PRESENTE
Perpétua guarda o lenço, cumprido o ritual, pergunta
Perpétua: E seu marido Astério?
Elisa: Passei na loja antes de vir pra cá... sabe que a carta não chegou mas hoje é sábado, não pode sair nem para o almoço. Por falar nisso, vou indo, tenho de mandar a marmita.
Perpétua: De noite passo em casa de vocês, digo o que o padre aconselhou. Vamos decidir o que fazer.
Elisa, de pé, um soluço a sacode
Elisa: E por que a gente não espera até o fim do mês?
Perpétua: De jeito nenhum! Já se esperou por demais. Vamos logo discutir o que fazer. Eu não vou ficar de braços cruzados, não lhe disse? Quero minha parte.
Elisa argumenta
Elisa: Quem sabe, a carta não se perdeu no caminho...
Perpétua: Carta registrada, não se perde, se rastreia. Nesses anos todos já se perdeu alguma? Bobagem. Diga a Astério que me espere, nada de bilhar hoje. Com a cunhada morta...
Elisa: E o Pai?
Perpétua começa a passar as contas do terço:
Perpetua: Amanhã a gente avisa o velho.
Elisa: É bem capaz dele ter um treco...
Perpétua: (ri) Quem? O Velho? Vai ficar uma fera, vai querer tomar dinheiro da gente, o mais que puder, isso sim. Se prepare, o tempo das larguezas se acabou.
Ao passar em frente ao corredor, Elisa enxerga ao fundo a chama das velas iluminando os santos no oratório. Uma, pela salvação da alma da morta, aos pés do Cristo crucificado; a outra, pela vida da tia, aos pés da Virgem.
Ouve a voz do rapazola rezando Salve-Rainha, mãe de misericórdia.
Ricardo: Misericórdia, meu Deus!
. . .vida, doçura, esperança nossa, salve! as palavras da oração nascem sinceras e sentidas da incômoda espinha, do nebuloso pesar.Vida, doçura e esperança... (interrompe)
Que doença pode tá matando minha tia meus Deus? Minha mãe e tia Elisa devem saber mas guardam segredo, na certa por se tratar de doença ruim, cujo nome não se pronuncia, tísica ou câncer. Mas quem trouxe a notícia, como chegou, em telefone, telegrama? Me dê respostas meu Pai...
NO CORREIO
Carmosina lê um artigo e exprime sua opinião fervorosa
Carmosina: Foi muito bem feito! Cadeia neles! (exclama em voz alta dona Carmosina, no auge do entusiasmo.) Finalmente erguera-se um juiz independente e digno, capaz de ditar sentença justa, mandando os canalhas para o xadrez: – Cambada de assassinos!
Entusiasmo e indignação sem espectadores, sozinha na repartição no começo da tarde.
Comandante Dário: Esses tipos deviam estar todos trancafiados na cadeia!
Retira a página, vai guardá-la para o Comandante.
Carmosina: Tá aí Comandante, o jornal é do Coronel Da Tapitanga mas faz tempo que não vem buscar. Página a mais página a menos, caderno a mais caderno a menos, para um velho de 78 anos já não faz diferença.
Nesse momento o Coronel entra na agência para buscar o jornal.
Artur: Boa tarde comandante Dario, Carmosina. Então D. Carmosina, me conte o que a senhora leu no meu jornal. Mas não me venha com mentiras... – ameaça-a com a bengala, ainda sabe rir.
Cuidadosamente, dona Carmosina dobra a folha de maneira a ficar o artigo à vista, matéria importante, no alto da página, o título em tipos fortes: A ITÁLIA CONDENA À PRISÃO OS QUE POLUEM SEU MAR.
Artur: País de primeiro mundo é outra coisa.
Dario: Se não se puser um paradeiro nisso, em breve as crianças já nascerão com câncer! Veja o caso do Japão...
Artur: Mas esse é o preço do progresso Comandante. Sant’anna do Agreste está atrasada demais. Precisamos ter um aeroporto, luz, ônibus, rodoviária. Ou mantemos o Mangue Seco belo e formoso ou seremos uma cidade de verdade.
Comandante torce o nariz para as palavras do Coronel que pega seu jornal e sai sem uma resposta.
FIM DO CAPITULO 10
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