TV Crítica: Pegadinhas brochantes







Na madrugada de sábado para domingo, logo depois da reprise do CQC, a Band exibe o Cine Privé. Em cartaz, filmes baratos e duvidosos, muitos deles já populares, como as estripulias da fogosa Emanuelle. Uma orgia mental para telespectadores que aprendem desde cedo o que é banalização do sexo e como se perpetua a imagem da mulher objeto. O horário é permissivo, 1h45. Basta ligar a TV. Neste caso, o apelo erótico é explícito. Menos mal. O problema acontece quando o produto vem com uma falsa embalagem, sugerindo uma proposta humorística, em um horário absolutamente inadequado. Não, caro leitor, não se trata de “A Praça é Nossa”, tampouco do “Superpop”. O buraco é mais embaixo. Quando todos pensavam que a TV já havia conhecido o fundo do poço, Silvio Santos chega, sorrateiramente, e solta mais uma de suas pilhérias. Sem muito estardalhaço, estreou no SBT, no dia 14 de setembro, às dez da noite, o programa “Pegadinhas Picantes”. Uma série de televisão caracterizada por cenas de humor em que as pessoas são pegas de surpresa ao observar situações bizarras de nudez.




Produzidos na Ucrânia pela AFL Productions e Comedy Central, sob a alcunha “Naked and Funny”, os esquetes apostam em um erotismo gratuito e vazio, com atores trajando sungas com enchimento frontal e modelos nuas em situações “inusitadas”.Em “Pegadinhas Picantes” nada é falado, o que deixa o programa ainda mais esdrúxulo. Acompanhados por música e onomatopéias, os quadros unem o erotismo ao pastelão, não se adequando perfeitamente em nenhuma das duas categorias. O resultado é patético. O áudio da reação das vítimas não é capturado. É o tipo de programa que poucos telespectadores assumem acompanhar. Dá vergonha de admitir. No entanto, os dados apontam para uma realidade diferente. Na faixa das 22h, os esquetes rendiam até 10 pontos no Ibope. O SBT já tem tradição em inserir o erotismo em alguns de seus programas. Difícil esquecer da polêmica e controversa banheira do Gugu, do insinuante “Cocktail”, apresentado por Miele na década de 80, e do horrendo humorístico “Sem Controle”, rifado da programação há poucos anos. Atrações que atraíram certa audiência, mas que sujaram a credibilidade da emissora e afastaram muitos anunciantes.Com a mudança das dez para as onze da noite, na segunda-feira (26), as "Pegadinhas Picantes" perderam quatro pontos no Ibope. Às 23h, o programa caiu para 06 pontos. A troca de horário foi por conta de reclamações de telespectadores. Às 22h, o SBT colocou no ar "Boletim de Ocorrências", com Joyce Ribeiro. Outra atração popularesca para tapar o buraco da programação. Que convoquem o Chaves, então. Sai mais barato e dá retorno.Silvio Santos adora polêmicas. E responde aos ataques com sarcasmo. Foi assim que o recado foi dado aos que “não gostam de ver belas garotas à vontade” na TV, através de uma chamada irônica, comunicando a troca de horário das “Pegadinhas Picantes”. Como se não bastasse o terrorismo gravado, editado e exibido com a Maísa, os escrachos com os convidados, como o recente episódio com a dançarina Carla Perez, agora Silvio Santos aposta na vulgaridade para alavancar os índices. Audiência barata que pouco ou nada vai agregar à programação. Para alguns pode até ser excitante. Mas para o departamento comercial e para a imagem institucional da emissora, esse decreto é broxante.


Por João Cláudio Lins


A critica acima é assinada por João Claudio Lins, colunista. Mas será que a critica é válida? Vejamos a verdade.
A exibição de cenas de sexo na TV e na teledramaturgia está cada vez mais pudica. Na contramão da liberação sexual dos anos 80 e início da década de 90, logo após a "castração" que se alastrou com a censura dos anos de chumbo, finalmente as novelas passaram a ter mais liberdade para explorar cenas eróticas.
Com o passar dos anos, no entanto, houve um crescimento da autocensura nas emissoras e, com a criação de uma portaria de Classificação Indicativa, do Ministério da Justiça há dois anos, as cenas de sexo "brocharam". A ponto de, a despeito de se interessarem por cenas mais ousadas, boa parte dos autores desistiu de utilizar erotismo na TV.
O que é contraditório com a audiência. Nas cenas mais "calientes" exibidas na novelas, o ibope aponta um significativo aumento. Esse foi o caso da recente e polêmica cena entre as personagens Fernanda e Maura, de Paloma Duarte e de Adriana Garambone, de Poder Paralelo, da Record.
A tomada em que ambas insinuam um jogo de sedução foi vetada inicialmente pela direção da emissora e até o texto de Lauro César Muniz parece ter sido rasurado. Mas após um acordo entre os bispos e o autor, as cenas foram levemente editadas. "Me empenho em fazer uma novela que não agrida o público e que respeite a inteligência do telespectador", explica Lauro.
Ao chegar para gravar esta cena, inicialmente Paloma Duarte se revoltou ao constatar que a cena não seguia à risca o texto do autor. "As crianças que estão na frente da TV são responsabilidade de seus pais, que devem permitir ou não. No dia em que essa cena foi exibida, subimos dois pontos na audiência.





Mas agora já estamos de bem com a emissora", argumenta Paloma. Também atuando em Poder Paralelo, Patrícia França, que vive a sofrida Nina, lamenta os cortes na trama. "Vetaram uma das cenas mais importantes da minha personagem: a que ela tira a virgindade do Pedro. É um momento lindo", lastima, se referindo ao personagem de Guilherme Boury.
Outra passagem que recentemente causou polêmica foi quando a gananciosa Yvone, de Letícia Sabatella em Caminho das Índias, fez um "strip-tease" ao contrário. Ou seja, quando ela foi se vestindo lentamente de forma insinuante após ter algemado o tonto Raul, de Alexandre Borges, seminu na cama. "Nunca usei cenas fortes nas minhas novelas. Sempre faço de uma forma lúdica", observa a autora Glória Perez.
Aguinaldo Silva tem sentido na pele os efeitos da Classificação Indicativa desde sua última trama, Duas Caras. Afinal, a Censura Federal ordenou que o autor cortasse cenas mais provocativas do "pole dance" da personagem Alzira, de Flávia Alessandra.
Há pouco tempo, Senhora do Destino, sua trama que fora reprisada na Globo, também foi alvo de cortes. Dentre os motivos argumentados, o que mais pesou foi a "linguagem de conteúdo sexual". Na verdade, Aguinaldo sempre assinou tramas mais ousadas, mas sem ser abusivo em imagens explícitas, como Tieta e Riacho Doce, que era pura libido. "O que prevaleceu nas cenas de sexo foi o bom gosto. Hoje em dia, a hipocrisia atual não me permitiria cenas mais fortes. Tieta também era muito ousada. Pairava no ar uma sede de liberdade que me contagiou", lembra Aguinaldo.
No momento, o que mais revolta os autores é ter de driblar a Classificação Indicativa. "Ela é uma censura mal disfarçada. O politicamente correto é uma praga que cerceia a liberdade criativa", brada Ricardo Linhares. Tiago Santiago, por sua vez, autor de Promessas de Amor, na Record e hoje no SBT, defende uma espécie de "bom senso" ao escrever cenas mais picantes. "Em novelas que podem ser exibidas à tarde, paro nos beijos. Pego mais leve porque sei que as famílias estão assistindo e sexo causa constrangimento", acredita.
Para Marcílio Moraes, um dos autores de tramas mais picantes, como Dona Flor e Seus Dois Maridos e Roda de Fogo, por exemplo, vocifera contra qualquer tipo de censura disfarçada de "indicação". Afinal, até poucos anos atrás, o público assistia, sem cortes, cenas sensuais mas que se justificavam no texto, em tramas como Presença de Anita, de Manoel Carlos, ou Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados, dirigida por Denise Saraceni. "O que tem acontecido é pior que a censura prévia. Hoje, as emissoras têm medo da reclassificação e metem a mão nas cenas. A Classificação Indicativa promoveu o reforço da hipocrisia e da caretice, grandes males do Brasil", critica.
Outras saídas

Tratar as cenas de sexo em novelas e minisséries de forma divertida é uma opção para burlar os vetos nas emissoras. 
Decamerão - A Comédia do Sexo, seriado que estréia em agosto na Globo, aborda o assunto sob o pretexto do humor. "A produção terá doses de erotismo, mas tudo bem sofisticado. Não tem nada escrachado", avisa o roteirista Jorge Furtado, que adaptou a obra de Giovanni Boccaccio, considerada o "marco zero" do realismo na literatura.
Hoje em dia pode ser mais prudente driblar a autocensura das emissoras com um pouco de jogo de cintura. Nos anos 80, no entanto, era mais difícil diante da sede de liberdade tão comum na década, quando após anos de censura federal, os autores começavam a poder ousar em seus roteiros com alguma autonomia. "Foi frustrante ver 'Brilhante' cortada na época da censura. Muitas das cenas dos personagens Leonor e Inácio, de Renata Sorrah e Dennis Carvalho, não foram ao ar", lamenta o autor da novela, Gilberto Braga.
Instantâneas
Paixões Proibidas, exibida pela Band em 2006, teve cenas picantes de sexo com atores portugueses, como a bela atriz São José Correia, que interpretou a fogosa duquesa Elisa na história de Aimar Labaki. "Tivemos sorte de não ter nenhuma cena vetada. Mas íamos ao ar após às 22 h", ressalta o autor. 
# Taís Araújo protagonizou diversas cenas quase eróticas em 
Xica da Silva. Na trama, exibida pela Manchete em 1996, a atriz interpretava a personagem-título, repleta de lascívia. Na época, a emissora praticamente fez uma contagem regressiva para que Taís completasse 18 anos e pudesse aparecer nua nas cenas. "Eu era muito imatura. Era muita exposição", recorda Taís. 
Pantanal e Dona Beja, tramas que foram exibidas na Manchete, não sofreram cortes em cenas de sexo em suas exibições no SBT. 
# No primeiro capítulo da novela 
Brega & Chique, o modelo Vinícius Mane aparecia na abertura da trama andando de costas nu, ao som do refrão "pelado, pelado, nu com a mão no bolso", da canção Pelado, da banda Ultrage a Rigor. No dia seguinte, a imagem do modelo apareceu com uma tímida folha de parreira em seu traseiro. Dois dias depois, após nova pressão de outra vertente do público, o modelo voltou a aparecer totalmente nu com a autorização do então Ministro da Justiça, Paulo Brossard.
Tudo é válido na TV, devemos é saber o que assistir, filtrar a programação, sem hipocrisia e censura. Se o Silvio acha bom ter as Pegadinhas na programação cabe a você ver ou não.
E como disse Paloma Duarte, cabe aos pais filtrar o que os filhos assistem e aproveitando o slogan da TV Cultura, 'Lugar de criança é na Cultura'. Lá a programação é livre e educativa.
Por hoje é só. 

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