'Achei que estava mais morto que vivo', diz espanhol sobre incidente em morro
Jornalista do 'El País' afirma que quase foi assassinado por traficantes.
E diz que só se sentiu seguro após 'entrar pela porta da minha casa'.
No texto, escrito em primeira pessoa, Barón conta que se aproximou da entrada da favela na terça para tentar conversar com moradores sobre os episódios do último sábado, quando o local havia sido palco de um confronto entre facções criminosas que acabara em mortes e um helicóptero da Polícia Militar abatido. Em menos de dez minutos na rua principal que dá acesso ao morro, o jornalista diz ter sido surpreendido por bandidos armados, que o ameaçaram de morte e o expulsaram dali, tremendo e com a camisa rasgada, sob a mira de metralhadoras.
Conversando na manhã desta sexta, ele diz que o susto passou. “Terça-feira foi o dia mais complicado. Tudo isso aconteceu por volta das duas e meia da tarde. Como você pode imaginar, o resto do dia foi muito tenso, do ponto de vista emocional, mas a partir da quarta já comecei a me acalmar. Está tudo mais ou menos bem agora, tudo tranquilo”, afirma em bom português, só com um pouco de sotaque.
Apesar da experiência angustiante no Macacos, Barón sabia onde estava pisando. Há quase quatro anos no Rio de Janeiro, o repórter espanhol revela que já subira morros em outras ocasiões acompanhando operações policiais. O que nunca fizera antes, porém, foi se aventurar pelas favelas sozinho.
Minutos depois, quando conseguiu mostrar a gravação de uma entrevista feita com um pesquisador sobre a pobreza no país, a sorte do jornalista mudou. “Num primeiro momento, eu achei que estava mais morto do que vivo. Mas aí, ao longo da conversa que a gente teve, eu já comecei a perceber que a intenção deles a priori não era de me matar. Quando eles me identificaram como jornalista, a intenção deles era me assustar”.
Mesmo poupado, Barón ainda teve de correr ladeira abaixo, sem poder olhar para trás. “Eu não me senti seguro até realmente entrar pela porta da minha casa. Aquele era um momento no qual você não estava totalmente a salvo”, lembra agora.
O jornalista também rejeita qualquer tentativa de relacionar os ataques com “a conclusão de que o Rio de Janeiro não é mais o lugar apropriado para a celebração dos Jogos Olímpicos”. “O que aconteceu não é novo. Quando o Rio foi escolhido como sede olímpica, todo mundo sabia que isso já tinha acontecido muitas vezes aqui. Acho um absurdo avaliar a situação em relação aos Jogos Olímpicos, até porque quem sofre as consequências das coisas são os moradores de lá, da Zona Norte. É com quem mora lá perto dos morros que a gente tem que se lamentar e se preocupar nesse momento, não com os Jogos Olímpicos.”
Por ora, Barón conta que só quer “tirar alguns dias de descanso” antes de voltar às ruas trabalhando como repórter. Continuar cobrindo os conflitos do tráfico no Rio, garante, ainda não está riscado de seu caderninho de anotações. Já voltar a por os pés no Morro dos Macacos... “Entendo perfeitamente a sua pergunta, mas e você, numa situação como a minha, você voltaria? Acha que não, né? Você está certo. A única coisa é que, para o tipo de cobertura que eu faço, vou ter de tomar algum tipo de precaução adicional para isso não acontecer mais ”, conclui.
E diz que só se sentiu seguro após 'entrar pela porta da minha casa'.
Três dias após ficar entre a vida e a morte, sob a mira de traficantes do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro, o jornalista espanhol Francho Barón já parou de tremer, mas alguma desconfiança ainda marca a entrevista. “Qual é o seu sobrenome?”, pergunta ao telefone, antes de concordar em conceder entrevista sobre a reportagem que publicou nesta quinta-feira (22) no jornal espanhol “El País”, do qual é colaborador.
No texto, escrito em primeira pessoa, Barón conta que se aproximou da entrada da favela na terça para tentar conversar com moradores sobre os episódios do último sábado, quando o local havia sido palco de um confronto entre facções criminosas que acabara em mortes e um helicóptero da Polícia Militar abatido. Em menos de dez minutos na rua principal que dá acesso ao morro, o jornalista diz ter sido surpreendido por bandidos armados, que o ameaçaram de morte e o expulsaram dali, tremendo e com a camisa rasgada, sob a mira de metralhadoras.
'Assumi o risco'
Conversando na manhã desta sexta, ele diz que o susto passou. “Terça-feira foi o dia mais complicado. Tudo isso aconteceu por volta das duas e meia da tarde. Como você pode imaginar, o resto do dia foi muito tenso, do ponto de vista emocional, mas a partir da quarta já comecei a me acalmar. Está tudo mais ou menos bem agora, tudo tranquilo”, afirma em bom português, só com um pouco de sotaque.
Apesar da experiência angustiante no Macacos, Barón sabia onde estava pisando. Há quase quatro anos no Rio de Janeiro, o repórter espanhol revela que já subira morros em outras ocasiões acompanhando operações policiais. O que nunca fizera antes, porém, foi se aventurar pelas favelas sozinho.
“Certamente eu sei que assumi o risco. Mas [no episódio desta terça] é importante levar dois fatores em conta. Primeiro que eu consultei os policiais que estavam ali na viatura na porta da favela, e eles não souberam me informar muito bem qual era a situação real no interior do morro. E em segundo lugar que eu entrei no primeiro trecho da rua principal do morro. Não cheguei a subir a ladeira. Fiquei só naquela primeira parte, que, você sabe, normalmente é o lugar que está mais ou menos sob controle. Todo mundo sabe que o tráfico principalmente está nas partes mais altas da favela”, explica.
De fato, como revela em sua reportagem para o “El País”, não havia traficantes lá embaixo, mas uma menina e um rapaz que o observava “a uns cinco metros” enquanto fazia perguntas ao dono de uma sorveteria podem ter avisado os bandidos. Logo que viu o grupo armado vindo em sua direção, Barón conta que se colocou de joelhos, com as mãos na nuca. Com as armas apontadas para ele, apresentou-se como repórter e começou a implorar pela vida enquanto revistavam suas credenciais.
Em seguida, ainda tentando provar que não estava ali para fazer matéria sobre o tráfico, Barón foi levado pelo grupo a uma praça central. “Jornalista, para de tremer, se quiséssemos você já estaria morto”, teria dito o líder do bando – frase reproduzida no título da reportagem do diário espanhol.
Minutos depois, quando conseguiu mostrar a gravação de uma entrevista feita com um pesquisador sobre a pobreza no país, a sorte do jornalista mudou. “Num primeiro momento, eu achei que estava mais morto do que vivo. Mas aí, ao longo da conversa que a gente teve, eu já comecei a perceber que a intenção deles a priori não era de me matar. Quando eles me identificaram como jornalista, a intenção deles era me assustar”.
Mesmo poupado, Barón ainda teve de correr ladeira abaixo, sem poder olhar para trás. “Eu não me senti seguro até realmente entrar pela porta da minha casa. Aquele era um momento no qual você não estava totalmente a salvo”, lembra agora.
Coração carioca
De volta ao “asfalto”, como os moradores do morro se referem à zona baixa da cidade, o jornalista afirma que não teme retaliações pelo que escreveu na reportagem. “Medo não tenho, não. Mas certamente não é agradável. Não é uma coisa agradável o que aconteceu. O Rio todo mundo sabe que é uma cidade que comporta alguns riscos, e que obviamente a profissão do jornalista também comporta alguns riscos em uma cobertura desse tipo. Mas mesmo assim, acho que não tenho razão para ficar superpreocupado. Acho que, com a minha matéria, eu não agredi ninguém. Simplesmente conto em primeira pessoa o fato que aconteceu, mas ninguém deveria se sentir agredido com o que fui publicado. Não acho que tenha um caráter nocivo para ninguém”, defende.
O episódio também não fez com que o espanhol, que se diz um apaixonado pela cultura brasileira, sequer cogitasse abandonar tão cedo o Rio, “um lugar maravilhoso para morar”. “Eu acho que o Rio é uma cidade menos violenta do que muitos veículos publicam. Às vezes, as pessoas têm a sensação através das informações publicadas nos jornais, de que se está vivendo num estado de guerra. Certamente, tem uma parte da cidade, que é a que mais sofre com essa situação, as áreas periféricas ou mesmo favelas que ficam na Zona Sul, onde acontecem episódios de violência brutal, mas são lugares bastante delimitados geograficamente. Uma coisa como aquela que aconteceu no final de semana no Morro dos Macacos, acho que seria praticamente impensável de acontecer em algum ponto na Zona Sul do Rio de Janeiro”, opina.
O jornalista também rejeita qualquer tentativa de relacionar os ataques com “a conclusão de que o Rio de Janeiro não é mais o lugar apropriado para a celebração dos Jogos Olímpicos”. “O que aconteceu não é novo. Quando o Rio foi escolhido como sede olímpica, todo mundo sabia que isso já tinha acontecido muitas vezes aqui. Acho um absurdo avaliar a situação em relação aos Jogos Olímpicos, até porque quem sofre as consequências das coisas são os moradores de lá, da Zona Norte. É com quem mora lá perto dos morros que a gente tem que se lamentar e se preocupar nesse momento, não com os Jogos Olímpicos.”
Por ora, Barón conta que só quer “tirar alguns dias de descanso” antes de voltar às ruas trabalhando como repórter. Continuar cobrindo os conflitos do tráfico no Rio, garante, ainda não está riscado de seu caderninho de anotações. Já voltar a por os pés no Morro dos Macacos... “Entendo perfeitamente a sua pergunta, mas e você, numa situação como a minha, você voltaria? Acha que não, né? Você está certo. A única coisa é que, para o tipo de cobertura que eu faço, vou ter de tomar algum tipo de precaução adicional para isso não acontecer mais ”, conclui.
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