Justiceiro capitulo 2


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JUSTICEIRO

Capítulo 02

“BRINQUEDOS DE ADULTOS”
Espiral da Perdição - Parte II




O salão de aproximadamente 100 m2 tem paredes nuas e lisas, sem emendas visíveis e com cantos arredondados, para dar a sensação de um fundo infinito. Mesmo a porta de entrada é difícil de enxergar. O ambiente é gélido e asséptico como em um laboratório de alta tecnologia.

Frank está na sala de comando do equipamento, que se assemelha à ilha de edição de uma emissora de TV. Através de uma grande vidraça é possível ver o salão abaixo. Ele escolhe um CD em uma estante ao lado do console central. A etiqueta traz escrito: "A primeira vez das ninfetas". O aparelho é acionado.

Lá embaixo as luzes se apagam por alguns minutos. Uma guitarra ecoa através de caixas de som ocultas. Na penumbra do salão surgem duas belas jovens vestindo biquínis minusculos. Um facho de luz revela uma piscina de hidromassagem em um canto. Lá estão mais três mulheres, uma loira, uma morena e uma negra, rindo alto. Com taças de champanhe nas mãos, elas convidam as recém-chegadas a entrar na água. Três homens aparecem do nada e aderem à comemoração. Luzes vermelhas acendem. Além da piscina, o local conta agora com uma enorme cama iluminada a luz de velas. O volume da música aumenta, agora com um saxofone.

Frank deixa a mesa de controle e desce ao salão. Ele se espanta com o realismo dos hologramas gerados pelo equipamento. Os aparelhos reproduzem os sons e até os cheiros do ambiente. Mesmo a temperatura do lugar é controlada, manipulando os sentidos do espectador. Não demora muito para que todos os personagens se envolvam em uma orgia sexual  incrivel. Músculos cultivados nas academias de ginástica, seios incrementados com silicone, roupas colantes sendo arrancadas nos dentes e gemidos falsos, misturando-se numa incrível fantasia erótica virtual.

O Justiceiro retorna à sala de controle. Amarrado em uma cadeira ao lado da porta está o dono do lugar. Francis Honorato. Um senhor com cerca de 50 anos, de traços finos. Geralmente é vaidoso e arrogante, mas no momento está abatido, com a camisa ensopada de suor. O sujeito está tremendo desde que viu o desenho da caveira estampado na camiseta de Frank, marca registrada do Justiceiro. Frank tira rispidamente a mordaça da boca do homem, arrancando fios de sua barba bem tratada.

— Onde estão os filmes com as garotas?

Sem levantar a cabeça, Honorato, com um fiapo de voz, indica um compartimento oculto debaixo do painel de controle. Lá dentro há exemplares mais pesados, para todos os gostos: submissão, sadismo, coprofagia,zoofilia, cinofilia, violação, necrofilia...

Ali estão também os filmes de maior sucesso da videoteca de Honorato. Dezenas de CDs (na verdade se tratam de VIDs, ou seja, "Virtual Imersive Disks"), com sexo explícito entre mulheres e adolescentes. Todos exploram fetiches sadomasoquistas, com chicotes, roupas apertadas de couro e fantasias de poder e dominação.

Frank vasculha o compartimento até encontrar uma caixa com três garotas na capa. Duas delas estavam com os contrabandistas no aeroporto. A terceira é uma morena de cabelos lisos e dezesseis anos no máximo. Muito bonita, ela tem grandes olhos castanhos e um ar juvenil. Parece ser a mais nova delas.

As três são fruto de uma rede de prostituição. Crianças que nasceram, por alguma razão ainda não esclarecida por ninguém ainda, caíram nas mãos desses criminosos. Elas levam uma vida normal até a adolescência, quando começam a descobrir que tem um algo a mais na vida, o sexo e o dinheiro fácil . Muitas não sobrevivem ao primeiro ano de sexo por conhecerem as drogas e por não saberem controlar o vicio e seus efeitos.

Para o público em geral e para a própria comunidade policial, tais meninas, caem nessa vida com o consentimento dos pais e isso representa  uma ameaça, um desvio de conduta social que deve ser temido e segregado da sociedade. Algumas autoridades, no entanto, alegam que eles na verdade esse é o primeiro passo para o degrau na da degradação humana. Segundo essa teoria, os pais são sempre humildes e devido a miséria ou as dificuldades “vendem” suas filhas a troco de uma casa melhor ou um emprego estável nas empresas desses canalhas.

Frank sabe muito bem o quanto essas meninas sofrem com a discriminação da sociedade. Ele está a par dos problemas que enfrentam, mas nunca tinha ouvido falar da existência de um mercado da pornografia especializado na exploração de adolescentes.

Quatro horas atrás, Frank levou para um hospital as moças que resgatou. Ele percebeu várias marcas de picadas nos braços delas, o que sugere que são viciadas. O fato de serem garotas de programa explicava também o porquê de tantos homens terem ido buscar a "encomenda"; eles não estavam preocupados com a polícia, mas sim com a possibilidade de elas oferecerem a eles sua virgindade sem a acusação de pedofilia ou estupro. Por isso, as garotas foram drogadas para não criarem problemas durante a viagem.

Segundo lhe informara o único capanga que sobreviveu ao confronto, esses criminosos atuam da mesma forma que algumas quadrilhas "tradicionais". Prometem trabalho no mercado da moda ou do cinema, com a perspectiva de conseguir fama e fortuna. No caso das meninas há também a questão da sua baixa auto-estima, devido ao preconceito que sofrem. São alvos fáceis para qualquer malandro que lhes dê esperança. Aos poucos as jovens vão sendo envolvidas em um esquema de prostituição e drogas, do qual é muito difícil sair.

As moças que Frank resgatou, Amanda Toledo e Linda Matheus, foram abordadas na rodoviária do Rio junto com uma amiga, Martha Delano. As três faziam parte de uma comunidade de garotas prostitutas que vive longe da cidade do Rio, conhecida como Sexolândia. Cansadas da discriminação por serem putinhas, elas fugiram do convívio social e foram tentar a sorte em outro lugar, assim como fazem milhares de jovens todos os anos. A maior parte delas nunca chega aos holofotes do cinema pornô; acabam em clubes de strip-tease ou na prostituição.

Com as informações dadas pelo contrabandista sobrevivente foi possível chegar a esse endereço em um bairro afastado da cidade. A mansão Honorato. O proprietário é também dono de uma famosa casa noturna. No imóvel funciona o prostíbulo mais luxuoso de toda a região. Grandes empresários, xeiques árabes, mafiosos, artistas de cinema ou simples turistas endinheirados freqüentam o lugar. Na casa é possível satisfazer absolutamente qualquer tipo de desejo que seus fregueses possam imaginar. Naturalmente, isso inclui sexo e drogas.

Uma inusitada atração do local, porém, é reservada apenas a alguns clientes exclusivos, dispostos a pagar caro por um pouco de diversão exótica. O Virtual Imersive Experience, uma sala de projeção de hologramas tão reais que é impossível distingüir entre realidade e fantasia. Ali costumam ser realizadas orgias envolvendo até 60 convidados, que literalmente "entram" no filme. O projeto foi implantado por Dr. Misterio, o Mestre da Ilusão, que na época precisava urgentemente de recursos para financiar sua vingança contra um rival que lhe passara para trás. A sala é na verdade uma versão aprimorada de seus "cubos holográficos". Uma rede formada por centenas de fibras óticas, incrustadas por toda a superfície do lugar, possibilita a projeção de imagens partindo de qualquer ângulo, gerando a ilusão tridimensional. Segundo Honorato, existem apenas meia dúzia de exemplares desse sofisticado equipamento no mundo inteiro.

Frank coloca o VID das meninas. O filme as mostra em situações humilhantes e elas estão aparentemente drogadas. Seus dotes são explorados para realizar fantasias das mais bizarras. A garota loira, Linda Matheus, faz sexo com diversos homens ao longo do filme e aos poucos vai se transformando em uma mulher promíscua transando com vários homens. Já Amanda Taylor, a menina de três olhos, tem o poder de manipular as diversas variações do espectro luminoso, gerando um insano efeito sensorial que reflete seu estado alterado de consciência. Luzes, cores, estímulos e sensações se alternam no salão em um ritmo quase alucinógeno à medida em que ela vai se perdendo em um


abismo, levada pelos tóxicos. Tudo isso é reproduzido holograficamente, como se fosse um espetáculo ao vivo. Elas não são tratadas como atrizes pornô, mas como mutantes, como menos do que humanas. Enquanto transam com os "atores" são severamente espancadas, tornando o espetáculo ainda mais degradante.

Frank sente seu estômago queimando. Ele desliga o aparelho. Já viu demais.

— Ok. Já entendi como isso funciona. Mas por quê você resolveu trazê-las para o Rio?

Honorato hesita, temeroso de que a resposta vá irritar o Justiceiro ainda mais. Após alguns segundos ele suspira e fala.

— Al... alguns fregueses da casa ficaram muito interessados nas meninas. Eles pagariam qualquer coisa para conhecê-las. Por isso pedi ao Alberto que as trouxesse.

— Conhecer? Você quer dizer que esses "fregueses" pagaram a você para comprar as garotas, não é? Seu degenerado explorador de menores! Você vendeu as meninas para esses tarados. Se vocês gostam desse tipo de perversão e alguns meninas aceitam participar disso, fodam-se, é problema de vocês. Mas a maioria dessas garotas... são quase crianças. 
— ele se contém para não espancar no dono do bordel.

O homem não ousa abrir a boca em resposta.

— Ok. Pode começar a dizer os nomes. Quem produziu o filme? Como você chegou a eles? Quais são os seus contatos?

— Mas...mas eu não posso falar. Você sabe muito bem que eles me matariam se eu os caguetasse.

— Interessante. Eu deixei vivo um dos homens que você mandou para buscar as meninas pelo país afora. Eu queria interrogá-lo, mas ele não queria colaborar. O cachorro chorou feito uma criança, disse que ia ser morto se entregasse o chefe, e toda aquele blá-blá-blá que eu sempre ouço desses tipos. A mesma coisa que você está dizendo agora. Só que antes de morrer ele acabou te entregando, graças à ajuda do meu coleguinha aqui.


Frank tira uma pequena caixa de papelão do bolso. Dentro dela há um escorpião. Honorato, amarrado à cadeira, se sobressalta. O Justiceiro coloca o aracnídeo no colo do sujeito, que fica paralisado de terror. O animal começa a andar instintivamente para cima, escalando a barriga do homem. Ele tenta desesperadamente não tremer de pavor, o que é quase impossível nessas circunstâncias. Cada passo lento que a criatura dá lhe causa um espasmo de terror, que ele se esforça para reprimir.

— Assim que eu sair daqui vou atrás dos miseráveis que fizeram isso. Vou fazê-los pagar. Os seus ex-coleguinhas vão vir atrás de você. Portanto a sua melhor chance de sair vivo é eu matar todos antes que eles te peguem. — O Justiceiro se aproxima até ficar a poucos centímetros do rosto do milionário — Mas fique sabendo que não adianta me enganar. Eu vou verificar cada detalhe da sua história. Se você estiver mentindo, aí EU é quem vai te perseguir. E você sabe que te acho onde quer que se esconda. — O olhar do Justiceiro deixa claro que ele está falando sério.

Honorato resolve falar. Ele conta que tudo o que sabe é o nome do dono de uma empresa de distribuição de filmes eróticos em Búzios: Sex Lips. É através dele que o milionário compra os VIDs. Foi quem intermediou a vinda das meninas, trazidas pelo contrabandista Alberto Neves. Logicamente há mais gente explorando o "trabalho" das garotas, mas o dono do prostíbulo garante que não sabe quem é.

Frank recolhe o escorpião e guarda a caixinha novamente no bolso do casaco. O sujeito fica aliviado, como se tirassem uma enorme fera de cima de suas pernas.

— O-obrigado. Obrigado. Muito obrigado! Eu juro que nunca mais vou tocar numa adolescente na vida. Ah meu Deus! Nunca mais. Vou vender essa casa, vou abandonar esse negócio para sempre. Eu juro. Obrigado senhor Justiceiro! Me arrependo muito. Se houver alguma coisa, qualquer coisa que eu pudesse fazer, por favor diga! Eu quero reparar o mal que fiz. Oh, senhor Justiceiro, obrigado. Muito obrigado mesmo... 

Ele continua falando sem parar. A saliva escorre branca e grossa da boca do bandido, formando um retrato patético em contraste com a sofisticação que ele ostenta. O homem começa a chorar copiosamente. Frank recolhe alguns VIDs para enviar à polícia, junto com a fita que está no pequeno gravador em seu bolso, com a confissão de Honorato registrada. Com essas provas os tiras poderão obter um mandado judicial e fechar a casa de prostituição.

Frank já está saindo pela porta da sala de controle. A lamúria sem fim do covarde o irrita profundamente, ainda mais por estar vindo de um corruptor de menores. Ele olha mais uma vez para a capa do VID com as meninas. Imagens do filme lhe vêm à cabeça. Junto com elas chega um súbito acesso de raiva, que o faz chutar uma lixeira escada abaixo. Alguma coisa quente e úmida sacode dentro de sua barriga e sobe, sufocante. Sua cabeça pesa com o cansaço e as horas sem dormir.

Frank olha mais uma vez para as garotas. Duas já foram salvas, falta uma. Ele sente o gosto de bílis na boca e seu rosto se contorce, os ombros tensos, doloridos, os olhos latejando. De repente o Justiceiro dá meia volta, encara furiosamente Honorato, que chora amarrado na cadeira, feliz por ter sobrevivido. Frank  caminha até ele, a expressão rígida como mármore; o milionário pára as lamúrias e sente o horror voltando, desta vez mais forte ainda, como se estivesse diante da morte em pessoa. O Justiceiro não costuma matar quem lhe dá informações, mas nesse caso vai abrir uma exceção. Possuído por algum demônio vingativo, ele agarra o bandido pelo cinto, puxa o homem para junto de si — Já que você gosta tanto de perversão, experimenta essa! — e joga o escorpião dentro da calça dele.

Frank sai e quebra a fechadura eletrônica da porta. Do lado de fora das paredes à prova de som, ninguém ouve os gritos desesperados do milionário.

Frank se sente um pouco melhor. Quem irá matar o safado é o escorpião, não ele, então, ele continua não matando seus informantes.


O sol já nasceu nessa manhã de segunda-feira e apenas uns poucos convidados permanecem na mansão, depois de mais uma noite de orgia. Alguns seguranças circulam displicentes pelos jardins, com a única preocupação de conter visitantes embriagados. Frank atravessa o jardim se esgueirando entre os arbustos, escala o muro no mesmo lugar por onde entrou, em um ponto cego entre as câmeras de vigilância, e ganha as ruas mais uma vez.


— Alô? Por favor, é do Hospital Salgado Filho?

— Sim senhor.

— Boa tarde. Aqui quem fala é Arthur Rocha, repórter daTribuna Carioca. Estou apurando o desaparecimento de três garotas daqui, e fui informado de que duas delas estão internadas neste hospital.

— Qual é o nome delas?

— Amanda Toledo e Linda Matheus.

— Ah! As do tiroteio? Que coisa horrível, essas meninas estavam envolvidas com gente perigosa. Esses adolescentes  sempre se metem em confusão.

— É verdade. Mas vão pegar os canalhas que as raptaram, pode ter certeza disso. Como elas estão?

— O estado de saúde delas é estável. O doutor... deixe-me ver aqui... O doutor Cortez disse que elas vão ficar em observação por algum tempo, e depois serão encaminhadas a um programa de desintoxicação para viciados. Ah, o detetive Couto, que cuida do caso delas, está aqui no hospital. Quer que eu o chame para o senhor?

— Não, não é realmente necessário. Muito obrigado. 


O Justiceiro desliga o telefone. Seu estômago se contrai, mas logo melhora. "Preciso procurar um médico assim que tudo terminar. Mas por enquanto isso não importa".

Ele foi  atrás de um contrabandista, e agora se via envolvido com algo totalmente novo: um grupo especializado em aliciar jovens mutantes para trabalhar em filmes pornográficos. Frank olha para o VID novamente. "Duas já estão em segurança. Falta uma. Eu vou encontrá-la. E se alguém ficar no meu caminho, o Rio de janeiro vai tremer como um tsunami.





CONTINUA...

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