Bares com garçonetes seminuas viram moda no Chile

“Boa tarde, Miguel, tudo bem? Como é que você quer seu cafezinho hoje? Puro, com baunilha ou com chocolate?”. São 14h em Santiago do Chile e María Loreto, uma bela morena de 27 anos e cabelos compridos e lisos, acaba de acolher seu vigésimo cliente do dia no Break Blue, um pequeno bar do centro da cidade, a poucos quarteirões do Palácio de La Moneda, sede da presidência. Para abartendress, é a hora do rush.

Seria uma cena banal em qualquer cidade do mundo, quando funcionários do governo e das empresas da vizinhança vêm tomar um café depois do almoço, antes de voltar ao trabalho. Só que, apesar do sol do verão, no bar é como se fosse de noite. E María, como suas quatro colegas, está seminua. A garota veste um biquíni minúsculo e um sutiã que revela mais do que esconde. O conjunto é fluorescente, iluminado por luz negra. As pernas são cobertas por botas pretas amarradas por trás.

Bem-vindos ao “café con piernas”, uma instituição genuinamente chilena. Há centenas deles no centro de Santiago e nas grandes cidades chilenas. “A gente trabalha a dois quarteirões daqui. Depois do almoço, paramos por 20 minutos para relaxar e esquecer o estresse da manhã”, explica o cliente Miguel, 30 anos, que veio com o colega Esteban. 




“Aqui o ambiente é agradável, tem ar condicionado, e podemos tomar um café ou um suco fresquinho e conversar tranquilamente", continua Miguel. O argumento é negado pela musica ensurdecedora do bar. “O mais importante é que estamos em boa companhia”, acrescenta Esteban, acariciando a mão de María. Fascinado, ele suspira: “Ela é realmente muito bonita!”. A garota ri, retira a mão e aproveita a oportunidade para perguntar aos fregueses se querem outro café.

Miguel e Esteban não trocariam de garçonete por nada no mundo. Eles vão ao local cinco vezes por semana para serem servidos por ela - e só por ela. Sentam-se em volta do balcão, em forma de ferradura, na parte reservada para ela. Esteban garante, rindo: “Eu jurei fidelidade à María; não posso andar com outras!”.

“O bar é dividido em quatro partes: cada uma de nós tem a sua. Se tiver muitos clientes, eu peço para a colega me deixar um pouco do espaço dela, e faço o mesmo quando ela precisa”, explica a garçonete.

Os cafés con piernas nasceram depois da última ditadura chilena (1973-1990). Durante 17 anos, o toque de recolher transformou Santiago numa cidade morta à noite. A medida foi suspensa com o fim da ditadura. “É preciso que reconhecer que, durante o governo do general Augusto Pinochet, a vida noturna morreu”, diz o gerente Enrique Delaveau, da empresa Todoespia, especializada na “gestão de adultério”. “Antes, havia shows de mulheres nuas na noite - nada de pornográfico, tudo muito elegante -, mas isso desapareceu. Com o retorno da democracia, essas coisas voltaram timidamente. É um negócio fabuloso”, completa.

Mas, num país tão marcado por valores conservadores, as noites são ainda muito comportadas. Os homens preferem ir ver mulheres peladas na hora do almoço, e o ritual sempre é seguido em grupo. “Todos os colegas do escritório vão e eles comentam depois. Todo mundo acha normal”, conta Delaveau. 

Nos últimos anos, o negócio explodiu: o centro da cidade tem hoje mais de 300 cafés con piernas, que surgem com muita facilidade, já que não precisam de alvará para vender bebida alcoólica. Aqui, só se servem café e sucos, na maior discrição. Miguel e Esteban reconhecem que, para eles, é essencial que suas esposas não saibam o que estão fazendo durante o intervalo de almoço. “É por isso que as janelas são escuras e que a maioria dos cafés é localizada nas pequenas galerias e não nas grandes avenidas. Caso contrário, eles não teriam clientes”, explica Esteban.
 
Gentileza

Outra explicação para o sucesso de alguns cafés em relação a outros é a “gentileza das garçonetes”, garante Maria. “Quando a garota é bonita, divertida e simpática, os homens passam a informação adiante e trazem amigos”, diz.

A gentileza, porém, deve ser substituída às vezes pela firmeza, reconhece a moça. “Alguns clientes não entendem que nós estamos aqui para conversar e nada mais. Eles nos convidam para almoçar e depois dizem que querem ficar com a gente”, conta. No Break Blue, esta intimidade é proibida pelos donos. “Se quisermos sair ou dormir com um cliente, é da conta da gente, mas não podemos dentro do bar”, lembra María.

"Os clientes sabem muito bem que em alguns lugares eles podem obter mais do que a conversa e o espetáculo de meninas peladas”, admite a garçonete. Ela sussurra os nomes de bares que têm um cômodo na parte de trás, onde as garotas oferecem favores sexuais aos clientes por alguns pesos a mais. “É tudo rápido, normalmente nada mais do que sexo oral, porque é proibido pela lei. Eu me recuso a fazer este tipo de serviço, nem deixo os clientes me beijarem na boca. Beijo na boca é para namorado!”, garante María.

Mesmo se não for na boca, a garçonete aceita um contato pelo menos íntimo. Ao colocar o café no balcão, ela deixa o cliente segurar sua mão e dar um beijo no pescoço. Se a gorjeta for boa, ele tem o direito de acariciar seus seios rapidamente antes de ir embora. 


Os gestos sedutores se alternam com outros quase maternais. As garçonetes colocam o açúcar no café, mexem com a colher, e se informam sobre os problemas de seus clientes. "Fazemos um verdadeiro trabalho de psicólogo. Eles nos contam as dificuldades com as mulheres, os pais, as amantes. Eles sabem que daqui não sai nada, e que não vamos julgá-los. Pelo contrário: nós tentamos aconselhá-los usando nosso ponto de vista feminino”, acrescenta María.

Vergonha

Para o analista político Santiago Escobar, longe de demonstrar uma libertação sexual igualitária, “o café con piernas é um exemplo de como a sociedade chilena continua frustrada”. Segundo ele, esses lugares são simbólicos da hipocrisia de uma sociedade conservadora. “É considerado normal para um homem ter uma amante ou sair com amigos para ver meninas nuas. Mas, em casa, ele faz de conta que é um pai e marido exemplar", comenta.

María não tem vergonha de seu trabalho, mas prefere que a família não saiba. Ela chegou ao Break Blue há apenas dois meses. “Antes era secretária, ganhava muito menos, trabalhando muito mais. Tenho uma filha de 8 anos de idade. Não posso passar o dia todo fora”, justifica. O emprego no bar vai das 9h às 15h, quando chega outro grupo de garçonetes. Nos dias bons, ela pode ganhar até 30 mil pesos (cerca de 100 reais). Nos dias ruins, metade disso.

Com o dinheiro, Maria espera voltar à faculdade e pagar uma boa escola para a filha. E, no final da conversa, admite ter também outro sonho. "Uma vez me disseram que um rapaz bonito e com emprego bom se apaixonou por uma das garçonetes. Ela foi embora daqui com ele, e eles se casaram”, conta, com um olhar cheio de esperança. 

Comentários

Postagens mais visitadas