"Cinquentinha" alcança meta e espera nova temporada











Como todo mundo já sabe e comentou-se à exaustão, “Cinquentinha” acabou em alta. Média de 21 pontos no horário, que foi seguido a risca, por não haver futebol as quartas-feiras, esse índice foi um verdadeiro prodígio. Deixou para trás  o excelente“Tropa de Elite”,  filme que a Record colocou no ar pra bater de frente com a minissérie e perdeu, o que significa que as “meninas cinquentinhas” fizeram o Capitão Nascimento dar sua primeira brochada.


Ou seja, sob todos os pontos de vista, uma vitória consagrada.


Se eu gostei do que vi? Sim, amei como nunca tinha visto um texto igual desde 2001 com "O Quinto dos infernos", e não me arrependo de dizer: ninguém além de Wolf Maya, com a  ajuda de Guilherme Boeckel, pra dar ao bem escrito texto de Aguinaldo Silva e Maria Elisa Berredo, a agilidade devida e a leveza que ele merecia.


Foi ótimo.


A meta era de 20 pontos e foi alcançada. Confira:


HORÁRIO: 23h00
DE: AGUINALDO SILVA
META: 20
MÉDIA GERAL: 20

08/12 a 11/12/2009 - 24 22 19 15 = 20



15/12 a 18/12/2009 - 20 19 20 19 = 20








É difícil não pensar numa outra temporada para Cinquentinha. 


Não esqueço das obras que tiveram suas continuidades e ficaram com qualidade aquém do original. Mas Cinquentinha apresenta um diferencial. Trata-se de uma obra que foi concebida para ser uma série, e que a direção da Globo optou em transformar em minissérie.  Projeto de seriado que é, muitos personagens ficaram bem construídos (não só textualmente, mas também pelas interpretações) e despertaram em nós a vontade de vê-los mais a fundo.


Não são apenas as três cinquentinhas que captaram nossa atenção: há relações familiares a serem trabalhadas, homossexualismos reprimidos a serem revelados, chantagens a serem desenvolvidas e descobertas, um núcleo de personagens jovens com muitos conflitos a desenvolver, enfim, um universo que orbita em torno das três protagonistas, mas que tem vida própria suficiente para render vários episódios.


Parte de minha antiga opinião (contra uma segunda temporada) devia-se ao fato de uma confusão ocasionada pela série ter sido transformada em minissérie. Conhecido o final (e é só aí que podemos fazer a análise do todo), não vejo mais nenhum problema artístico em novas temporadas. Tivesse a obra se fechado, aí sim haveria um problema, pois “forçar” uma continuação seria muito estranho.


Mas ainda que hoje tenha outra opinião, gosto do que  Henriette Delforge escreveu dia desses. É muito interessante também o apontar caminhos feito pela dupla Aguinaldo e Maria Elisa. Só a inquietação que eles provocaram em roteiristas da própria casa já nos dá esperança de que outros projetos dinâmicos e modernos surjam.


Voltando ao elenco, nesta análise geral que faço, opto por não falar do elenco. Este grupo de atores desenvolveu um verdadeiro trabalho de equipe, a ponto de ninguém roubar a cena de ninguém, de modo que se eu comentasse o trabalho de um ou outro ator, correria o risco de ser injusto (em outra ocasião, falarei de alguns deles. Mas este momento é do coletivo).


Neste ano tivemos três obras de arte na televisão brasileira: MaysaSom e Fúria e Cinquentinha. Obras diferentes, tentar igualá-las seria burrice. Há espaço para todos os gêneros. O que é necessário é qualidade. Mas não se pode negar que em relação a uma das principais necessidades da televisão (se não a maior), Cinquentinha sai na frente: seu texto, seu ritmo, seus assuntos atingem uma parcela muito maior de público, num diálogo difícil de ser alcançado em TV, entre qualidade e audiência.


Os temas fortes, sérios e necessários de serem abordados com a sociedade, e que foram tocados em Cinquentinha, tiveram a roupagem mais difícil de ser empregada, a da comédia: gênero considerado menor, é ele quem desmascara de verdade nossas mazelas, nossos problemas. No drama, choramos catarticamente, acaba-se a obra e pronto. Estamos aliviados, mas sem refletir. “Nada mais triste do que o riso... Por isso, a intenção dos autênticos escritores de comédias, quer dizer, os mais profundos e honestos, não é, de modo algum, unicamente divertir-nos, mas abrir despudoradamente nossas cicatrizes mais doloridas para que as sintamos com mais força. Isto pode ser aplicado a Shakespeare e a Molière tanto quanto a Terêncio e a Aristófanes”. A essa declaração de Federico Fellini, se incluo Juca de Oliveira, depois de Cinquentinha devo incluir também Aguinaldo Silva e Maria Elisa Berredo.


Lamenta-se apenas não termos no Brasil uma crítica especializada em produção televisiva. Não acusemos só as universidades públicas. Também as particulares não possuem disciplinas de crítica televisiva. Já é passada a hora, afinal qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento televisivo não tem como considerar jornalismo crítico matérias que, ao falar de Cinquentinha, referem-se ao trabalho como aquele em que as três peruas interpretam a elas mesmas. No mínimo, é um equívoco de amador, pois ainda que na vida real as três atrizes sejam peruas, o papel de Rejane não foi escrito para Betty Lago, o que torna essa afirmação jornalística (?) mentirosa.


Mas assim como chegamos a um texto moderno nas minisséries, quem sabe um dia não seja criada no país uma crítica televisiva de verdade?

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