O banho de Manoel Carlos em Viver a Vida


Por Patrícia Kogut




Uma das cenas mais bonitas de “Viver a vida” até aqui foi a do banho de chuveiro de Luciana (Alinne Moraes) dado pela mãe, Tereza (Lilia Cabral). Foi uma daquelas mostras de vigor que Manoel Carlos dá quando cria um diálogo que surpreende, tão real, afirmando sua marca naturalista e seu talento para compreender e reproduzir perfeitamente as possibilidades de uma relação entre mãe e filha. Foi também a reunião de duas atrizes que têm um trabalho de altíssima qualidade e se entendem juntas muito bem.
A direção acertou, sem coreografar nada, como às vezes acontece em “Viver a vida”. Se houve marcações, elas não foram intervencionistas, permitiram que tudo de melhor que poderia aflorar ali fluisse. Deu certo. Na chuveirada, Maneco conseguiu dar a volta também no que parece uma impossibilidade: apresentar uma personagem tetraplégica sendo positiva sem cair no bobo alegre. Isso não é pouco. A tragédia de Luciana é pesada e o diálogo das duas não deixou este peso de lado.
“Perdi tudo o que aprendi a vida inteira”, disse ela à mãe, que responde com a frase-chave da conversa: “Luciana, você tem vocação para a felicidade, é como eu. Nós não sobrevivemos nas tristezas. E se a vida não está colaborando, você tem que arrumar um jeito de encontrar a felicidade. Olha esse momento aqui, não é um momento lindo? É sim. Porque você está melhorando”. O diálogo seguiu sem qualquer excesso, nem pieguice. Um feito, convenhamos, tudo é carregado: Luciana está inválida, apareceu nua, numa situação quase humilhante, infeliz etc. Além disso, a combinação de lágrimas com a água do chuveiro correndo tinha grandes chances de cair no drama lacrimoso.

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